O keffiyeh



Lacan e o olhar – o keffiyeh como objeto a cultural

Em Lacan, o olhar é sempre marcado pelo desejo do Outro. O keffiyeh, na cena contemporânea, é frequentemente lido por espectadores ocidentais como signo de alteridade radical, por vezes politizada (associada à causa palestina), por vezes estereotipada (orientalismo). Na animação, o personagem usa o keffiyeh e olha fixamente o espectador. Esse olhar, agora, não é apenas o do homem genérico, mas o de um sujeito cujo adorno carrega uma história de luta, deslocamento e representação. Lacan diria que o olhar não está no olho, mas no tecido simbólico que envolve a cabeça. O keffiyeh torna-se, assim, objeto a cultural: aquilo que o espectador não consegue apreender totalmente, mas que o interpela como falta, falta de conhecimento, falta de reconhecimento histórico.

Deleuze e a repetição – o keffiyeh como diferença que não se deixa domesticar

Para Deleuze, a repetição autêntica produz diferença. Se o keffiyeh é repetido em cada ciclo do looping, ele não se torna familiar; ao contrário, sua repetição acentua a diferença entre o que ele significa em contextos distintos. Para um espectador palestino, pode evocar sumud (firmeza) e resistência; para um espectador israelense, possível associação com conflito; para um espectador desinformado, apenas um “lenço exótico”. A repetição do gesto de reverência com o keffiyeh força essa polissemia a cada ciclo. O keffiyeh não se fixa, ele diferencia os regimes de olhar a cada repetição. É o que Deleuze chamaria de potência do falso: nenhuma leitura é definitiva, todas coexistem no looping.

Reverência com keffiyeh – submissão ou dignidade?

O gesto de baixar a cabeça, tradicionalmente lido como reverência ou submissão, ganha nova inflexão: muitas culturas do Oriente Médio consideram baixar levemente a cabeça com keffiyeh um sinal de respeito ou reconhecimento entre iguais, não de servidão. A repetição infinita, então, não é um gesto colonial de humildade forçada, mas um ritual de reconhecimento mútuo que não se esgota. O personagem não se curva a um senhor, ele saúda perpetuamente o espectador como um par, mas um par cujo olhar (lacaniano) ele jamais dominará.

Paralelo: keffiyeh, looping e a crítica ao orientalismo

Em diálogo com Edward Said (Orientalismo, 1978), poderíamos acrescentar: a repetição infinita do homem de keffiyeh que olha e reverencia subverte a fixação orientalista. O orientalismo congela o “Orientale” em uma imagem estática e atemporal. Aqui, o looping não congela, ele movimenta perpetuamente. O keffiyeh não é um fetiche exótico, mas um operador de diferença a cada ciclo. O espectador, diante da repetição, é forçado a abandonar a leitura única e habitar a ambiguidade.